Por Vandré Brilhante*

O Brasil ainda tem 2,3 milhões de crianças de 0 a 3 anos fora das creches por alguma dificuldade de acesso ao serviço, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O número chegou a crescer, de 36% para 38,7% do total de crianças matriculadas entre 2022 e 2023, mas ainda está longe da meta do Plano Nacional de Educação, que é garantir o acesso a, no mínimo, 50% das crianças.

A educação na primeira infância é uma questão que se discute pouco na sociedade, apesar de tão premente na formação de uma nação. A importância de brincar, dormir, se alimentar corretamente, conviver coletivamente, com garantia de um ambiente seguro: tudo isso molda o indivíduo para um futuro melhor, de aprendizagem e empregabilidade. Pouca gente faz essa correlação tão importante.

O CIEDS, comprometido em construir redes para a prosperidade de pessoas e comunidades, está atento a essa demanda e colocou em prática, junto ao Instituto Tecendo Infâncias, o projeto Infância Tecida em Laços, que já celebra dois anos de impacto positivo na vida de famílias em Pacajus, no Ceará, por meio do CCMB (Centro Cultural Maloca dos Brilhante).

É um projeto em que a gente trabalha, com as famílias e com a comunidade, a importância da formação pré-escolar, atuando diretamente para melhorar a qualidade de vida de crianças de 0 a 6 anos por meio da educação, do diálogo e da garantia de direitos básicos na infância. Tem a ver com senso de família e com senso de cuidado comunitário.

Este ano, celebramos com muita alegria o impacto positivo na vida de 109 famílias, totalizando 150 crianças acompanhadas, espalhadas por 16 bairros. Em 2024, já haviam sido 91 famílias atendidas, com 134 crianças acompanhadas. E o projeto se expande e também oferece apoio à comunidade e inclusão produtiva das famílias. Em 2025, foram 96 cestas básicas distribuídas, 526 doações recebidas, 125 profissionais capacitados e 12 pessoas incluídas em outros projetos, além de 331 encaminhamentos a políticas públicas.

Garantir apoio nessa fase da vida muda todo o futuro do indivíduo. É nessa fase que, com os estímulos adequados, a criança tem uma melhor formação cognitiva, desenvolvendo integralmente habilidades como linguagem, raciocínio lógico, socialização e autonomia. A presença na escola ainda contribui para uma melhor nutrição, além do desenvolvimento da curiosidade e da criatividade, fundamentais para a construção de conhecimento.

Tudo isso garante mais confiança no futuro.

Quando a gente fala de educação na primeira infância, não estamos falando da educação como a gente lembra na juventude, numa sala de aula. É uma educação de cuidado, acima de tudo, que envolve também orientar as famílias, em temas como alimentação saudável, criação de rotina de sono, higiene e fornecimento de estímulos corretos, adequados à idade. É sobre garantir direitos básicos, por meio de um espaço seguro, acolhedor e estimulante, que promova o desenvolvimento, com atividades recreativas e lúdicas. Esse trabalho, com um projeto pedagógico adequado, é extremamente importante.

A gente defende que é necessária essa educação pré-escolar especialmente para as famílias mais pobres do Brasil, que não têm suporte de uma rede familiar ampla. Quase sempre, esse núcleo familiar se resume a uma mãe solo ou alguma referência feminina que, além de tudo, ainda precisa trabalhar e não tem com quem deixar sua criança.

A educação pré-escolar não é sobre terceirizar a criação de um filho. É sobre fornecer um complemento importante, feito por profissionais, para apoiar no desenvolvimento físico, motor e cognitivo da criança. A construção de uma sociedade melhor passa pela atenção à primeira infância. E os resultados do nosso projeto Infância Tecida em Laços, em Pacajus, comprovam justamente isso.

 

* Vandré Brilhante – Diretor-presidente do Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (CIEDS). Há 32 anos atua no Terceiro Setor e no aprimoramento de políticas públicas brasileiras. Fundador e Diretor-Presidente do CIEDS, graduado em Ciências Econômicas na Universidade de Fortaleza, especialização nos EUA em Economia Internacional. Experiência em Desenvolvimento Local, Gestão Estratégica e Gestão do Terceiro Setor com larga atuação em projetos de cunho social e público. Conselheiro em espaços de diálogo e controle social, como no ConSOC do BID e no CNAS. Participa ativamente de discussões nacionais e internacionais sobre a consolidação de políticas públicas para a mudança social concreta. Tem foco no fortalecimento de organizações sociais de base comunitária e na autonomia das juventudes