Por Vandré Brilhante*

Você já imaginou viver sem banheiro em casa? Essa é a realidade de 1,2 milhão de pessoas no Brasil, segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Esse dado, por si só, já evidencia uma violação grave de direitos fundamentais. O contraste se torna ainda maior quando se observa o outro extremo da população: 5,4 milhões de lares contam com quatro banheiros ou mais.

Nas escolas, espaço de convívio coletivo em que o acesso a um banheiro deveria ser garantido, a situação não é tão diferente. Pelo menos 347 mil alunos da rede pública de ensino são afetados por falta de banheiros, de acordo com o Censo Escolar 2024. Além disso, 647 mil estudantes estão em escolas que não possuem água potável, 179 mil são afetados pela ausência de abastecimento de água e 357 mil por falta de esgoto.

Como uma criança pode aprender, brincar e se desenvolver em um espaço sem o mínimo de dignidade e higiene? São condições que impactam diretamente a saúde, dificultando a permanência e o aprendizado.

É fácil esquecer dessa realidade se puxar a descarga, abrir a torneira ou lavar as mãos são tarefas que você faz no automático. Mas basta imaginar: o que aconteceria se o seu banheiro não existisse? Se você tivesse que improvisar? Como ficaria a sua saúde, o seu bem-estar e até a sua rotina de trabalho?

O acesso a um banheiro adequado é algo tão naturalizado para grande parte da população que, muitas vezes, não percebemos o quanto ele é determinante para a saúde, a dignidade e a qualidade de vida. Essa situação alarmante revela o tamanho da desigualdade no Brasil, onde milhões de pessoas ainda vivem sem infraestrutura básica. Em alguns casos, o sanitário improvisado encontra-se dentro do próprio espaço da cozinha, ao lado do fogão, evidenciando um nível crítico de insalubridade.

Diante desse cenário, iniciativas locais têm buscado respostas. Um exemplo é o Projeto Banheiro Justo, realizado por organizações de base comunitária do território de Itaqui-Bacanga, em São Luís (MA), fortalecidas pelo CIEDS, por meio do programa Rede de Prosperidade Familiar, em parceria com a Vale.

Ao todo, serão construídos 15 banheiros para famílias em situação de vulnerabilidade. O número pode parecer pequeno, diante da dimensão do problema, mas seu impacto é imenso: cada banheiro significa mais saúde, dignidade e esperança para uma família que antes vivia sem esse direito básico.

O programa integra um esforço mais amplo para retirar da linha da pobreza 4 mil famílias em São Luís, com ações voltadas para saúde, educação, geração de renda, cultura e melhoria da habitação. O objetivo é construir, por meio da atuação de 41 Organizações de Base Comunitária do território, alternativas que apoiem o enfrentamento às situações de pobreza e que gerem prosperidade e confiança no futuro para as comunidades vizinhas ao Terminal de Ponta da Madeira e da Estrada de Ferro Carajás.

A lógica é simples, mas poderosa: não há prosperidade sem condições mínimas. E para que os efeitos dessas ações sejam verdadeiramente duradouros, é necessário fortalecer as organizações de base comunitária do território.

Quando se discute pobreza, muitas vezes o foco está na renda, no emprego ou na alimentação. Mas o acesso a banheiros é um componente básico. Sem isso, não há possibilidade de se efetivar qualquer outra política pública que pretenda de fato reduzir desigualdades. A ausência de sanitários adequados em casas e escolas revela não apenas falhas estruturais, mas também a negligência histórica com populações inteiras – sobretudo nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde os índices são mais graves.

A desigualdade no acesso a banheiros expõe também a fragilidade da integração entre saúde e educação no Brasil. Crianças sem banheiro em suas escolas não apenas enfrentam dificuldades de aprendizado, mas também ficam mais suscetíveis a doenças, o que compromete sua presença em sala de aula e, consequentemente, seu futuro.Diante desse quadro, é urgente que governos municipais, estaduais e federal priorizem o tema como política pública essencial. Não se trata apenas de infraestrutura, mas de direitos humanos básicos.

Se, para muitos, a falta de água por dois dias já soa como calamidade, para milhões de brasileiros a ausência de banheiro é uma realidade permanente. Refletir sobre isso é reconhecer o privilégio de quem tem acesso a condições mínimas de higiene e, ao mesmo tempo, um chamado à ação coletiva para mudar esse cenário. Afinal, enquanto parte da população acumula banheiros, milhões seguem sem nenhum – e esse é um dos aspectos mais brutais da desigualdade social no Brasil.

* Vandré Brilhante – Diretor-presidente do Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (CIEDS) e Conselheiro Deliberativo do Instituto Tecendo Infâncias. Há 32 anos atua no Terceiro Setor e no aprimoramento de políticas públicas brasileiras. Fundador e Diretor-Presidente do CIEDS, graduado em Ciências Econômicas na Universidade de Fortaleza, especialização nos EUA em Economia Internacional. Experiência em Desenvolvimento Local, Gestão Estratégica e Gestão do Terceiro Setor com larga atuação em projetos de cunho social e público. Conselheiro em espaços de diálogo e controle social, como no ConSOC do BID e no CNAS. Participa ativamente de discussões nacionais e internacionais sobre a consolidação de políticas públicas para a mudança social concreta. Tem foco no fortalecimento de organizações sociais de base comunitária e na autonomia das juventudes