Leia o artigo sobre a COP 30 e as pautas que norteiam a primeira infância escrito pela analista de Projetos do Tecendo Infâncias, Camila Rizzi*

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), iniciada nesta semana em Belém (PA), coloca o Brasil no centro do debate global sobre as mudanças climáticas. O encontro é uma oportunidade de ampliar a discussão sobre adaptação climática nas cidades, resiliência dos territórios e participação social como caminhos para enfrentar os desafios ambientais do presente e do futuro. Esses temas ganham ainda mais relevância quando pensamos nas crianças, que vivenciam de forma direta os impactos das transformações ambientais e cujas experiências cotidianas podem inspirar soluções mais humanas, inclusivas e sustentáveis.

Em minha trajetória como bióloga, trabalhando com projetos socioambientais e educação ambiental no terceiro setor, ganhei a percepção do quanto pode ser desafiador dialogar sobre meio ambiente e mudança do clima com crianças que não conhecem o território onde vivem. Quando falta o contato com a natureza, a possibilidade de brincar ao ar livre, o acesso a ambientes saudáveis ou a segurança para circular pelos espaços públicos, não se perde apenas o vínculo com o lugar, mas também o sentimento de pertencimento e de responsabilidade com o mundo.

Hoje, atuando no Instituto Tecendo Infâncias e acompanhando projetos apoiados de Norte a Sul do país, vejo diariamente como a primeira infância é um ponto de partida essencial para implementar soluções de mitigação ambiental e resiliência climática. Uma das premissas que orientam a atuação do Instituto é a de que toda criança precisa de um lugar acolhedor para viver, brincar, estudar, dormir e crescer. Quando garantimos espaços saudáveis e inspiradores para as crianças, estamos, na prática, fortalecendo a base de comunidades mais resilientes e sustentáveis.

Um exemplo concreto vem de Campinas (SP), com o projeto Verdejando Escolas, realizado em parceria com a Fundação FEAC , o Instituto Arcor Brasil e o CoCriança . A iniciativa está transformando o pátio de seis escolas em espaços vivos, integrados à natureza, cocriados a partir dos desejos e percepções das próprias crianças. O projeto mostra que ações de mitigação ambiental podem começar em espaços comunitários, estimulando o brincar livre, o contato com o verde e o fortalecimento dos vínculos entre crianças, educadores e território.

Essas experiências nos lembram que a resiliência climática não se constrói apenas com infraestrutura verde ou políticas públicas bem desenhadas, mas também com relações afetivas e comunitárias. Quando uma criança se sente parte do lugar onde vive, ela se torna uma guardiã natural desse espaço. E quando uma comunidade reconhece o valor de suas infâncias, ela se torna mais capaz de cuidar do futuro.

Colocar as crianças e as comunidades no centro da ação climática é, portanto, mais do que uma estratégia de educação ambiental, é um ato de justiça socioambiental. É garantir que os direitos das crianças sejam respeitados e que cada uma delas possa crescer em um ambiente saudável, fértil de possibilidades, onde natureza e cultura caminham juntas.

Afinal, se queremos um planeta mais resiliente, precisamos começar de onde a vida começa: das infâncias e dos territórios que as acolhem.

*Camila Rizzi é analista de projetos no Instituto Tecendo Infâncias, filantropia estratégica com foco no desenvolvimento de crianças na primeira infância. Foi educadora ambiental da Fundação SOS Mata Atlântica, atuou na gestão de projetos e desenvolvimento de atividades socioeducativas para estudantes e educadores. Bióloga e pós-graduanda em Governança Ambiental, Social e Corporativa