Confira a experiência da diretora-executiva do Tecendo Infâncias, Adriane Menna Barreto*, durante semana imersiva sobre filantropia e primeira infância na França

Estive em Paris nos últimos dias do mês de março de 2026, representando o Instituto Tecendo Infâncias em uma agenda que trouxe reflexões relevantes sobre o papel da filantropia no cenário atual. Participei de encontros distintos, mas muito complementares.

O primeiro, uma reunião de aproximação com a UNESCO. Fui recebida pela equipe de ECCE (Early Childhood Care and Education), dedicada ao fortalecimento de políticas, qualidade e integração entre cuidado e educação na primeira infância. Foi uma conversa muito rica, que abriu possibilidades de colaboração a partir do reconhecimento de que compartilhamos objetivos comuns e uma visão alinhada sobre o desenvolvimento na primeira infância. A equipe está no coração dessa agenda dentro da UNESCO, atuando na formulação de políticas, na produção de conhecimento, na articulação entre países e no apoio técnico a governos.

O segundo momento foi a participação na OCDE, no encontro anual da netFWD (Network of Foundations Working for Development), que reuniu, ao longo de dois dias,  algumas das principais fundações e organizações do mundo. Estavam ali representantes da Gates Foundation, Kellogg Foundation, Conrad N. Hilton Foundation, Bayer Foundation entre outras, além de importantes atores como o Banco Mundial e a ONU.

Um dos momentos centrais foi o lançamento do estudo Private Philanthropy for Development (terceira edição), que reúne dados de mais de 500 fundações e analisa o período de 2020 a 2023. Ainda que olhe para um passado recente, o Estudo funciona como uma linha de base importante, especialmente em um mundo que se transforma rapidamente.

Ouvir diretamente instituições tão diversas foi uma oportunidade rara. Mais do que o volume de recursos, o debate se concentrou em um desafio maior: como construir uma filantropia mais estratégica, transparente e capaz de colaborar em um cenário de crescente pressão sobre o financiamento público e de redução dos fluxos de ajuda internacional.

Foram feitas importantes reflexões.

Dados importam, mas não qualquer dado

Dados ampliam transparência, constroem confiança, revelam oportunidades de colaboração e ajudam a mover da teoria para a ação. Mas não basta produzir informação. É preciso torná-la acessível, comparável e útil. O compartilhamento de dados aparece como condição para identificar lacunas, alinhar esforços e construir agendas mais coordenadas. Ao mesmo tempo, ainda há limites importantes. Faltam dados qualitativos, faltam informações sobre aprendizagem e muitas comunidades seguem sub-representadas, como as populações indígenas.

Colaboração não é apenas somar recursos

Mais colaboração não significa necessariamente mais dinheiro. Significa, muitas vezes, usar melhor o que já existe. As fundações aparecem não apenas como financiadoras, mas como conectores, capazes de facilitar relações, abrir caminhos e aproximar agendas. Mais de dois terços das organizações pesquisadas já atuam em iniciativas colaborativas, e o cofinanciamento vem se consolidando como prática relevante.

A filantropia tem potência, mas também limites

Entre 2020 e 2023, foram mobilizados USD 68,2 bilhões em filantropia para o desenvolvimento, cerca de 10% da Assistência Oficial ao Desenvolvimento (AOD). Desse total, USD 52,8 bilhões correspondem a fluxos internacionais e USD 15,4 bilhões à filantropia doméstica.

É um volume relevante, mas que evidencia também os limites do setor. A filantropia pode se mover com mais agilidade, testar soluções, assumir riscos e apoiar inovação. Mas, sem transparência e sem base comparativa, cresce a expectativa sem que cresça, na mesma medida, a capacidade de resposta.

O desafio da intersetorialidade segue em aberto

Os dados do Estudo mostram uma forte concentração temática: 40% dos recursos destinados à saúde e 11% à educação. Senti falta do olhar intersetorial. O financiamento ainda opera de forma setorizada, enquanto, nos territórios, os desafios se apresentam de forma interconectada e exigem respostas igualmente articuladas. Essa visão mais integrada apareceu com mais força nas conversas de coffee break, nas falas das organizações que atuam diretamente na ponta.

O caminho dos recursos

Os dados da pesquisa revelaram dinâmicas importantes:

E um dado chama atenção: apenas 11% dos fluxos internacionais chegam diretamente a organizações locais. Ou seja, grande parte dos recursos ainda não chega diretamente na ponta.

Uma mudança em curso

Outro ponto relevante foi a mudança de linguagem e do entendimento do papel da filantropia, que começa a se deslocar do lugar de financiadora de projetos para o de habilitadora de sistemas. Isso exige novas capacidades, novas formas de atuação e, sobretudo, novas formas de colaboração. As discussões sobre blended finance trouxeram também um alerta importante: bancos, fundações e governos operam com lógicas diferentes. O que é investimento para um banco não é o mesmo que para uma fundação. Alinhar essas linguagens é parte essencial do trabalho.

Resumindo um pouco de tudo o que ouvi, o progresso vem de parcerias e transparência, assim como o desenvolvimento não é conduzido por um único ator. Ele depende de coalizões, coordenação, confiança e dados que não sejam apenas disponíveis, mas úteis para orientar decisões.

O Instituto Tecendo Infâncias é um ator ainda recente nesse ecossistema, mas com o compromisso de contribuir de forma efetiva para o fortalecimento da agenda da primeira infância. Estar nesse ambiente, ouvindo, trocando e construindo relações, reforça a importância de ampliar conexões, aprofundar aprendizados e atuar com cada vez mais consistência diante da complexidade dos desafios.

Talvez a imagem que fica seja simples: onde colocamos luz, começamos a enxergar melhor. E, quando enxergamos melhor, colaboramos melhor também.

*Adriane Menna Barreto atualmente ocupa o cargo de Diretora Executiva do Instituto Tecendo Infâncias, filantropia estratégica com foco no desenvolvimento de crianças na primeira infância. Tem experiência no setor privado, público, e no setor cidadão, na gestão de pessoas, processos e recursos.