O ECA Ambiental e o direito das crianças a territórios saudáveis

Como o ECA Ambiental pode aproximar políticas públicas, escolas e comunidades para garantir o direito à natureza desde a primeira infância?

A aprovação do ECA Ambiental pelo Senado representa um avanço fundamental na proteção de crianças e adolescentes diante dos impactos cada vez mais alarmantes da crise climática. O Projeto de Lei 2.225/2024, que segue para sanção presidencial, estabelece princípios e diretrizes para garantir o direito da criança e do adolescente à natureza com prioridade absoluta.

Entre outras medidas, o texto prioriza a proteção em situações de riscos socioambientais e climáticos, assegura o acesso a áreas naturais saudáveis e o direito ao brincar livre, prevê mecanismos para o fortalecimento de vínculos socioafetivos com o meio ambiente e valoriza uma educação baseada na natureza. Também garante a participação de crianças e adolescentes nos espaços de planejamento e de tomada de decisão para a construção de políticas de prevenção, adaptação e resposta a eventos climáticos extremos.

A definição dessas medidas ganha ainda mais relevância diante da dimensão dos riscos. Segundo o Relatório de Risco Climático das Crianças 2026 do UNICEF (Children’s Climate Risk Report 2026), quase metade das crianças do mundo está exposta a pelo menos três ameaças climáticas simultâneas. No Brasil, cerca de 16 milhões de crianças e adolescentes estão expostos a três ou mais riscos climáticos, enquanto mais de 30 milhões estão expostos a pelo menos dois. 

Essa multiplicidade de ameaças tem consequências que ultrapassam a dimensão ambiental e afetam saúde, educação, alimentação, água, habitação, mobilidade, proteção social, cultura e lazer. O risco climático para uma criança não depende apenas da exposição a uma enchente, seca ou onda de calor, mas também das condições em que ela vive e do acesso a serviços essenciais. Por isso, os impactos não são distribuídos de forma igual. Crianças que vivem em territórios mais vulneráveis, com moradias precárias e menor acesso a serviços públicos, estão mais expostas aos riscos e têm menos recursos para enfrentá-los e se recuperar de seus efeitos.

É por isso que o ECA Ambiental aproxima duas agendas que não podem ser tratadas separadamente: a garantia dos direitos da criança e a construção de territórios ambientalmente saudáveis. Essa perspectiva dialoga profundamente com a atuação do Instituto Tecendo Infâncias. O Instituto parte da compreensão de que toda criança precisa de um lugar acolhedor para viver, brincar, estudar, dormir e crescer, e de que o contato com a natureza é também um direito, com o potencial de transformar a maneira como ela se relaciona com o mundo.

Reconhecer esse direito desde a primeira infância implica repensar os espaços e as experiências que fazem parte da aprendizagem infantil. Pensar a educação baseada na natureza não significa apenas levar crianças para áreas verdes, mas ampliar as possibilidades de aprendizagem na escola e em seu entorno, reconhecendo a natureza como parte do processo educativo. Aprender com, na e sobre a natureza pode ajudar as crianças a compreender as relações entre água, solo, plantas, animais, pessoas e território. Essa abordagem fortalece a curiosidade e o cuidado e pode contribuir para formar, desde cedo, uma relação mais socioafetiva com os lugares onde vivem. Garantir esse direito também significa ampliar o acesso à natureza no cotidiano, como nas árvores e sombras das ruas, nas praças, nos pátios escolares e nos espaços seguros para brincar.

Projeto “Verdejando Escolas” – Campinas (2026)

O próximo passo é transformar o avanço legislativo em políticas de infância integradas à agenda climática. Além de mencionar crianças nos planos climáticos, é preciso considerar os impactos do clima na formulação das políticas em diferentes frentes. Isso significa preparar escolas e espaços de brincar para ondas de calor e enchentes, garantir que os serviços públicos respondam aos eventos extremos e que os planos de emergência considerem as necessidades específicas de gestantes, bebês, crianças pequenas e crianças com deficiência. 

Essa resposta precisa ser intersetorial e territorializada, porque o risco climático não chega organizado em secretarias. Uma enchente pode interromper a escola, comprometer a alimentação, afetar a saúde, deslocar famílias e fragilizar redes de proteção ao mesmo tempo. Nesse contexto, as crianças também precisam ser ouvidas, perspectiva que é fortalecida pelo ECA Ambiental. Escutá-las não significa transferir para elas a responsabilidade de resolver a crise, mas reconhecer seu direito de expressar perspectivas sobre os lugares onde vivem, e contribuir para a construção de políticas públicas mais inclusivas e conectadas às diferentes realidades brasileiras.

Garantir o direito das crianças a territórios saudáveis é garantir o direito a uma infância plena. O ECA Ambiental abre uma oportunidade para que cidades, escolas, políticas públicas e comunidades incorporem a proteção climática como parte da agenda da infância, e fortaleçam uma cultura de cuidado capaz de tornar os ambientes mais preparados e melhores para todos. 

Referências

BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei nº 2.225, de 2024. 
UNICEF. Children’s Climate Risk Report 2026.
UNICEF Brasil. Entre no Clima: por uma Educação Baseada na Natureza.

Camila Rizzi é analista de projetos no Instituto Tecendo Infâncias, filantropia estratégica com foco no desenvolvimento de crianças na primeira infância. Foi educadora ambiental da Fundação SOS Mata Atlântica, atuou na gestão de projetos e desenvolvimento de atividades socioeducativas para estudantes e educadores. Bióloga e pós-graduada em Governança Ambiental, Social e Corporativa.