O Brasil passa a contar com um dos retratos mais completos já produzidos sobre o desenvolvimento de crianças na primeira infância. Foram divulgados os resultados do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância (IELS), iniciativa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que, pela primeira vez, inclui o país em sua amostra.
Realizado no Brasil por uma coalizão de organizações comprometidas com a agenda da primeira infância — da qual o Instituto Tecendo Infâncias fez parte como lead financiador — o estudo traz dados inéditos sobre o desenvolvimento de crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola nos estados do Ceará, Pará e São Paulo.
Ao todo, participaram 2.598 crianças, distribuídas em 210 escolas (80% públicas e 20% privadas), em uma pesquisa que avaliou, de forma lúdica e adaptada à faixa etária, três dimensões centrais do desenvolvimento infantil: aprendizagens fundamentais (literacia e numeracia emergentes), funções executivas (como memória de trabalho e controle inibitório) e habilidades socioemocionais (como empatia e comportamento pró-social). O estudo também incorporou a percepção de famílias e professores, ampliando a compreensão sobre os contextos de vida das crianças.
Avanços e desafios
Os resultados mostram que o Brasil apresenta desempenho próximo ou ligeiramente acima da média internacional em literacia emergente, além de bons indicadores em habilidades socioemocionais relacionadas à empatia. Esses dados sugerem possíveis impactos positivos de políticas públicas recentes voltadas à alfabetização e ao desenvolvimento integral na infância.
Por outro lado, o estudo acende alertas importantes. O desempenho em numeracia emergente ficou significativamente abaixo da média internacional, com maior dispersão entre as crianças — indicando desigualdades mais acentuadas nesse domínio. As funções executivas também apresentam resultados inferiores, com destaque para a memória de trabalho, fortemente influenciada pelas condições socioeconômicas.
Desigualdades que começam cedo
Um dos principais achados do IELS é a evidência de que desigualdades já estão presentes antes mesmo do ensino fundamental — e se acumulam. Fatores como nível socioeconômico, gênero e raça influenciam diretamente os resultados das crianças em diferentes dimensões do desenvolvimento.
Crianças em contextos de maior vulnerabilidade, incluindo aquelas de famílias beneficiárias de programas de transferência de renda, apresentam menores pontuações em praticamente todos os domínios avaliados, especialmente em numeracia e funções executivas.
O papel do ambiente familiar
O estudo também evidencia a importância do ambiente de aprendizagem em casa. Dados mostram que 53% das famílias brasileiras relatam nunca ou raramente realizar leitura com as crianças, enquanto apenas 14% fazem essa prática com frequência — um número significativamente inferior à média internacional.
Além disso, o uso diário de dispositivos digitais por 50,4% das crianças e a menor frequência de atividades ao ar livre e interações qualificadas apontam para desafios na promoção de experiências que favoreçam o desenvolvimento integral.
Evidências para transformar realidades
Os resultados reforçam que o desenvolvimento infantil é resultado de múltiplos fatores e exige respostas articuladas. Investimentos em educação infantil de qualidade, políticas públicas integradas e ações de apoio às famílias são essenciais para reduzir desigualdades e ampliar oportunidades desde o início da vida.
A participação do Instituto Tecendo Infâncias como liderança na coalizão que viabilizou o estudo no Brasil reafirma seu compromisso com a produção e disseminação de evidências, bem como com a articulação de iniciativas que promovam o desenvolvimento saudável e integral de crianças, especialmente em contextos de vulnerabilidade.
Acesse o estudo completo
Os dados do IELS oferecem subsídios fundamentais para o aprimoramento de políticas públicas e para o fortalecimento de práticas que impactam diretamente a vida das crianças.
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Sobre o IELS
O IELS foi desenvolvido pela OCDE em meados da década de 2010, surgindo da necessidade de países disporem de dados comparáveis sobre a primeira infância. A primeira aplicação oficial ocorreu em 2018, envolvendo a Inglaterra (Reino Unido), a Estônia e os Estados Unidos. Atualmente, o estudo está em seu segundo ciclo (IELS 2025), que expandiu o alcance geográfico para incluir o Brasil, Azerbaijão, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Holanda e Malta, além da permanência da Inglaterra. No Brasil, o estudo é apoiado por um consórcio de instituições, liderado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que inclui, além do Tecendo Infâncias, B3 Social, Colibri Capital, Fundação Lemann, Fundação Lia Maria Aguiar, Instituto Beja, Itaú Social, Perfin Wealth Management e Serviço Social da Indústria (Sesi).